Steve Hogarth passou por uma longa sequência de frustrações antes de encontrar seu lugar no Marillion. O vocalista, que entrou na banda em 1989 após a saída de Fish, chegou a considerar seriamente abandonar a música e se tornar leiteiro ou carteiro para levar uma vida mais tranquila ao lado da família.

Em entrevista à revista Prog, Hogarth relembrou os primeiros passos de sua trajetória musical, desde a descoberta do rock progressivo na adolescência até os períodos em que viu diferentes projetos fracassarem. Segundo ele, a ideia de alcançar o estrelato rapidamente nunca deixou de existir, embora tenha demorado muito mais do que imaginava.

“Eu sempre imaginei que seria uma estrela quando estivesse na casa dos 20 anos. Demorou muito mais do que isso. Alguns diriam que isso ainda não aconteceu.”

A relação de Hogarth com a música começou pelo canto. Aos 11 anos, ele participava de um coral, mas foi uma apresentação do Deep Purple durante a turnê de Machine Head que mudou sua percepção sobre o que queria fazer da vida. Como nunca teve muita afinidade com guitarra, convenceu os pais a comprarem um piano antigo.

O rock progressivo também teve papel importante em sua formação. Durante uma festa na adolescência, Hogarth ouviu The Yes Album, do Yes, depois de terem tocado discos de Status Quo e Led Zeppelin.

“Pensei: ‘O que diabos é isso? Isso é incrível!’”

Ele também passou a acompanhar de perto Genesis e Yes, assistindo a shows das duas bandas durante períodos marcantes de suas carreiras. Entre as apresentações que presenciou estavam as turnês de Fragile, Close to the Edge, Foxtrot, Selling England By The Pound e The Lamb Lies Down On Broadway.

Sua primeira experiência profissional no palco veio com Harlow, banda formada com amigos de escola. Hogarth tocava piano e cantava, enquanto um amigo assumia a bateria e outro tocava guitarra. O grupo se apresentava em pubs, clubes de trabalhadores e clubes ligados às comunidades de mineradores em Doncaster.

Em 1978, Harlow lançou o single Harry De Mazzio, trabalho que Hogarth hoje olha com certo distanciamento. Na época, porém, ele estava mais interessado em seguir seu próprio caminho do que em acompanhar a explosão do punk.

“Todo mundo olha para 1977 como o ano em que o punk aconteceu, mas isso nunca aconteceu em Doncaster. Eu era um hippie nas garras do punk.”

Hogarth chegou a circular pela cidade usando roupão, tamancos amarelos e muitos colares, visual que frequentemente provocava reações hostis.

“Eu tinha a necessidade de deixar claro: ‘Olhem, eu não sou como o resto de vocês’. Provavelmente era por isso que eu apanhava bastante.”

Depois de se mudar para Londres, ele formou brevemente o Neutrinos com integrantes do Harlow. A aventura terminou de maneira pouco gloriosa: a van dos Correios usada para transportar os equipamentos quebrou, e os músicos não tinham dinheiro para consertá-la.

“Não conseguíamos pagar o conserto, então ela acabou em um depósito. E esse foi o fim da banda.”

Na sequência, Hogarth entrou para o The Europeans como tecladista e acabou assumindo também alguns vocais. O grupo lançou dois álbuns pela A&M e acreditava que finalmente havia encontrado o caminho para o sucesso, mas a gravadora encerrou suas operações no Reino Unido.

“Estávamos absolutamente convencidos de que seríamos enormes. Não parecia um sonho; parecia algo que iria acontecer.”

Após o fim do The Europeans, Hogarth passou a trabalhar como músico de sessão e participou de projetos ligados a nomes como John Otway, Julian Cope e Matt Johnson, do The The. A experiência, porém, não o afastou de seu desejo de ter uma banda própria.

Ao lado do guitarrista Colin Woore, também ex-integrante do The Europeans, formou o How We Live. O grupo lançou em 1987 o álbum Dry Land, mas novamente enfrentou problemas com a gravadora. Durante um show no ICA, em Londres, o diretor-gerente da companhia teria feito uma avaliação devastadora da banda.

“O diretor-gerente disse: ‘O cantor não sabe cantar, a banda não sabe tocar e as músicas não são boas’. Bem, eu era o cantor, a banda era excelente e você pode discutir sobre as músicas. Mas foi isso.”

O How We Live acabou dispensado na semana seguinte. Para Hogarth, aquela experiência foi o ponto mais baixo de sua relação com a indústria musical.

Foi neste momento de sua vida que ele considerou abandonar a música e se dedicar a alguma profissão convencional. Perguntado pela Prog se era verdade o que ele disse há algum tempo, que cogitou ser leiteiro, Hogarth disse:

“Totalmente. Eu fiquei arrasado com todo o processo de assinar contrato com a Portrait. Nós costumávamos ir até lá, tocar as músicas, e eles diziam: “Hmm… vocês têm mais alguma coisa?”. Era horrível. Não tinha nada a ver com criatividade; era algo como: “Nos deem um sucesso ou caiam fora”. Naquela altura, eu já não conseguia nem passar em frente a uma loja de instrumentos musicais sem sentir o nó no estômago apertar. Pensei: “A vida é curta demais para isso”.

Minha esposa estava grávida do nosso primeiro filho, então eu disse: “Quer saber? Vamos para Derbyshire, comprar uma casa de campo bonita em uma vila agradável; vou arrumar um emprego que termine na hora do almoço e acompanhar meus filhos crescendo”. Naquele momento, eu teria preferido ser leiteiro a ter alguém me pedindo para escrever outra música.”

Hogarth recebeu então uma proposta para tocar teclados com The The durante a turnê de Mind Bomb, de 1989. Ele recusou, sem saber que pouco depois surgiria a oportunidade que mudaria definitivamente sua carreira.

Por indicação de seu amigo Darryl Way, Hogarth foi convidado a fazer um teste para o Marillion, que procurava um substituto para Fish. A entrada na banda não foi simples, especialmente porque parte dos fãs ainda associava o grupo à antiga formação.

O próprio Hogarth admite que só percebeu a dimensão do desafio quando subiu ao palco pela primeira vez.

“Foi quando tocamos ao vivo pela primeira vez que percebi de repente o que eu tinha assumido. Pensei: ‘Meu Deus, o que eles vão fazer?’”

Ao mesmo tempo, ele não queria simplesmente reproduzir o passado. Hogarth buscou contribuir para uma mudança na direção musical do grupo, tentando afastá-lo do conservadorismo que, em sua avaliação, havia se estabelecido durante os anos 1980.

“David Bowie disse uma vez que você precisa estar na água naquele lugar onde seus pés quase não tocam o fundo, porque é ali que estão as coisas boas. E acho que, se fossem deixados por conta própria, eles não entrariam tão fundo.”

Hogarth permanece no Marillion desde então e participou de 16 álbuns de estúdio da banda. Mesmo depois de décadas de carreira, ele ainda considera sua permanência no grupo uma das principais conquistas de sua trajetória.

Entre os trabalhos dos quais mais se orgulha está o registro ao vivo All One Tonight, gravado no Royal Albert Hall.

“Lembro de estar ali naquela noite e pensar: ‘Deus, isso é lindo. Como conseguimos juntar tudo isso?’ E tenho orgulho de ainda estar aqui.”

Curiosamente, mesmo depois de tantos anos no Marillion, Hogarth ainda demonstra carinho pelo The The. Se Matt Johnson o convidasse para participar de alguns shows, a resposta seria imediata.

“Eu faria alguns shows com ele em um piscar de olhos. E nem cobraria dele.”

Steve Hogarth

Fonte: roadiecrew.com

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